Ano sim, ano não a coisa invadia-me o espírito, tomava-me a atenção: estudar História; tenho que estudar História, tirar a licenciatura em História. E depois avançar para um mestrado na área, numa das áreas que tanto me têm cativado ao longo da vida, como «a gastronomia no tempo das caravelas» ou algo relacionado com a nossa presença por terras da Índia. Sim, bem sei, dirá quem me conhece: lá estão os petiscos e as viagens. Pois sim, digo eu, mas nos últimos tempos os petiscos têm sido menos, e as viagens quase nenhumas. Fiquemos pois com a História.
Vem tal comentário a propósito de uma conversa que escutava já lá vão umas boas semanas, na cantina do ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa), onde quem está inscrito na Universidade Aberta na região de Lisboa faz os exames.
Exato, antes de mais, é isso mesmo, no ano passado inscrevi-me na licenciatura em História da UAb. E tudo começou numa conversa com a minha mãe, como aliás muitos passos das nossas vidas nascem, com uma conversa com as nossas mães. No caso, ela tinha uns desdobráveis sobre a Universidade Aberta, uma universidade que na altura não conhecia, e que se baseia no ensino à distância. Pensei logo em fartos envelopes a chegar a casa com aulas em vídeo e algo do género, porventura mais tenebroso ainda, como lições via televisão. Peguei nos folhetos promocionais, acedi ao site, apreendi a lógica da coisa, que era tudo via internet com exames presenciais, e umas semanas depois estava inscrito para exame de admissão. A coisa correu como desejado, e em Outubro do ano passado… Finalmente a História na minha vida. Não como autodidata, ao sabor dos meus desejos e gostos de cada momento, como até então tinha acontecido, mas com obrigações, timings por cumprir, trabalhos, livros desconhecidos por ler, documentos por decifrar, professores variados, colegas que se tornam companheiros, noites de estudo, exames e notas!
Mas volto então ao café do ISEL, onde ansiosamente aguardava pelo exame de Clássicas. É que apanhei-lhe o jeito, e gosto de estar uma hora antes dos exames na cantina, de garrafa de água na mesa a passar uma vista de olhos pela matéria, principalmente pelas datas. Como diz o outro, «o conhecimento exato das datas não é essencial em História, mas não há História sem datas… ». Gosto por isso, nas minhas respostas e sempre que se justifica, de enquadrar bem no tempo, no tempo certo, os acontecimentos. Mas estava eu perdido em séculos que já lá vão, quando se sentam perto duas raparigas, uma do ISEL e outra da UAb. E a conversa girava em torno do ensino à distância. Que era um ensino menor, dizia a do ISEL; que não, pelo contrário, até era mais exigente, pois obrigava a um estudo mais solitário, com um apoio mais assíncrono, contrapunha a da UAb.
Ali fiquei, entre datas passadas e comentários de hoje, numa viagem temporal que me punha a pensar em espartanos e atenienses, na Grécia e Roma antiga, e de quais as reais vantagens do ensino à distância face ao tradicional. Hesitei, com um tão exigente exame à porta, mas assim continuei, neste balanço temporal. Felizmente, Roma e Grécia até não ficaram mal, com um dezassete final, mas o resultado da conversa das minhas vizinhas também não foi tempo perdido: a minha colega de estudos explicou, explicou, e a coisa ficou esclarecida na mente da estudante de engenharia, via ensino presencial.
E o que ficou ela a saber sobre o ensino à distância da UAb?
- Que em termos pedagógicos é tão exigente como o presencial.
-Que não tem nada a ver com certos ensinos à distância do passado, nomeadamente os muito referidos pela negativa ensinos à distância no Brasil.
- Que se o ensino é à distância, ninguém tem nota sem um exame presencial. Tal e qual o ensino tradicional. E que os exames têm o mesmo grau de dificuldade.
- Que é um ensino que tem professores, e que há um contacto direto entre alunos e professores, tal como no presencial. Neste último caso, tal acontece essencialmente na sala de aulas, no ensino à distância via plataforma de aprendizagem, onde se podem colocar as questões e tirar dúvidas com os professores.
- Que tem muitas vantagens face ao ensino tradicional: pode-se estudar seja onde se estiver (num monte no Alentejo, em Lisboa, Madrid ou Macau), podemos gerir o tempo da forma que entendermos e podemos ter contacto com professores e colegas quando assim o entendemos, além de outras, como o facto de ser financeiramente mais acessível, pois poupa-se nas despesas de deslocação, hoje não tão desprezíveis quanto isso.
E finalmente, não ficou a saber, porque na altura tal não lhe foi dito, mas eu acrescento: é natural a reserva em relação ao que é novo, principalmente quando quem se pronuncia estuda no ensino tradicional. Para um estudante do ensino presencial, custa saber que se pode estudar de uma forma diferente, com menos esforço em termos de deslocação e, principalmente, com a possibilidade de poder gerir o tempo à sua maneira; o tempo, esse bem cada vez mais escasso. E como lhe custa tal situação, é natural que tenda a menosprezar, a desvalorizar o novo, o diferente. A História sempre nos disse isso, e assim continuará a dizer.
Mas, digo agora eu, pelas melhores razões (tem muitas vantagens) e piores (questões puramente económicas) , o ensino à distância vai-se lentamente impor e chegar às próprias universidades tradicionais, que a ele se vão render, principalmente nos cursos de ciências sociais. Se medicina, por exemplo, está fora deste modelo, a verdade é que há muitos cursos que se adaptam bem, como a UAb tem demonstrado. Aliás, a aplicação da plataforma moodle no ensino presencial é apenas mais um passo, um pequeno passo…
Por fim, uma questão, mas que eu remeto para o lado mais romântico do ensino: este ensino não desvaloriza os professores? Não faz perder o encanto de algumas aulas; aquelas com professores que nos fazem em cada contacto pessoal mais apreciar e querer aprofundar determinada matéria? Não deixamos de apreciar aqueles professores que são excelentes comunicadores? Sim, é uma das poucas desvantagens do ensino à distância, mas que certamente a evolução das novas tecnologias e a sua aplicação ao ensino, bem como a nossa presença em colóquios ou conferências certamente ajudarão a ultrapassar…
Ensino à distância? Sim, porque não?





























