22 de Novembro de 2011

 

Ano sim, ano não a coisa invadia-me o espírito, tomava-me a atenção: estudar História; tenho que estudar História, tirar a licenciatura em História. E depois avançar para um mestrado na área, numa das áreas que tanto me têm cativado ao longo da vida, como «a gastronomia no tempo das caravelas» ou algo relacionado com a nossa presença por terras da Índia. Sim, bem sei, dirá quem me conhece: lá estão os petiscos e as viagens. Pois sim, digo eu, mas nos últimos tempos os petiscos têm sido menos, e as viagens quase nenhumas. Fiquemos pois com a História.

 

Vem tal comentário a propósito de uma conversa que escutava já lá vão umas boas semanas, na cantina do ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa), onde quem está inscrito na Universidade Aberta na região de Lisboa faz os exames.

Exato, antes de mais, é isso mesmo, no ano passado inscrevi-me na licenciatura em História da UAb. E tudo começou numa conversa com a minha mãe, como aliás muitos passos das nossas vidas nascem, com uma conversa com as nossas mães. No caso, ela tinha uns desdobráveis sobre a Universidade Aberta, uma universidade que na altura não conhecia, e que se baseia no ensino à distância. Pensei logo em fartos envelopes a chegar a casa com aulas em vídeo e algo do género, porventura mais tenebroso ainda, como lições via televisão. Peguei nos folhetos promocionais, acedi ao site, apreendi a lógica da coisa, que era tudo via internet com exames presenciais, e umas semanas depois estava inscrito para exame de admissão. A coisa correu como desejado, e em Outubro do ano passado… Finalmente a História na minha vida. Não como autodidata, ao sabor dos meus desejos e gostos de cada momento, como até então tinha acontecido, mas com obrigações, timings por cumprir, trabalhos, livros desconhecidos por ler, documentos por decifrar, professores variados, colegas que se tornam companheiros, noites de estudo, exames e notas!

 

Mas volto então ao café do ISEL, onde ansiosamente aguardava pelo exame de Clássicas. É que apanhei-lhe o jeito, e gosto de estar uma hora antes dos exames na cantina, de garrafa de água na mesa a passar uma vista de olhos pela matéria, principalmente pelas datas. Como diz o outro, «o conhecimento exato das datas não é essencial em História, mas não há História sem datas… ». Gosto por isso, nas minhas respostas e sempre que se justifica, de enquadrar bem no tempo, no tempo certo, os acontecimentos. Mas estava eu perdido em séculos que já lá vão, quando se sentam perto duas raparigas, uma do ISEL e outra da UAb. E a conversa girava em torno do ensino à distância. Que era um ensino menor, dizia a do ISEL; que não, pelo contrário, até era mais exigente, pois obrigava a um estudo mais solitário, com um apoio mais assíncrono, contrapunha a da UAb.

 

Ali fiquei, entre datas passadas e comentários de hoje, numa viagem temporal que me punha a pensar em espartanos e atenienses, na Grécia e Roma antiga, e de quais as reais vantagens do ensino à distância face ao tradicional. Hesitei, com um tão exigente exame à porta, mas assim continuei, neste balanço temporal. Felizmente, Roma e Grécia até não ficaram mal, com um dezassete final, mas o resultado da conversa das minhas vizinhas também não foi tempo perdido: a minha colega de estudos explicou, explicou, e a coisa ficou esclarecida na mente da estudante de engenharia, via ensino presencial.

 

E o que ficou ela a saber sobre o ensino à distância da UAb?

 

- Que em termos pedagógicos é tão exigente como o presencial.

-Que não tem nada a ver com certos ensinos à distância do passado, nomeadamente os muito referidos pela negativa ensinos à distância no Brasil.

- Que se o ensino é à distância, ninguém tem nota sem um exame presencial. Tal e qual o ensino tradicional. E que os exames têm o mesmo grau de dificuldade.

- Que é um ensino que tem professores, e que há um contacto direto entre alunos e professores, tal como no presencial. Neste último caso, tal acontece essencialmente na sala de aulas, no ensino à distância via plataforma de aprendizagem, onde se podem colocar as questões e tirar dúvidas com os professores.

- Que tem muitas vantagens face ao ensino tradicional: pode-se estudar seja onde se estiver (num monte no Alentejo, em Lisboa, Madrid ou Macau), podemos gerir o tempo da forma que entendermos e podemos ter contacto com professores e colegas quando assim o entendemos, além de outras, como o facto de ser financeiramente mais acessível, pois poupa-se nas despesas de deslocação, hoje não tão desprezíveis quanto isso.

 

E finalmente, não ficou a saber, porque na altura tal não lhe foi dito, mas eu acrescento: é natural a reserva em relação ao que é novo, principalmente quando quem se pronuncia estuda no ensino tradicional. Para um estudante do ensino presencial, custa saber que se pode estudar de uma forma diferente, com menos esforço em termos de deslocação e, principalmente, com a possibilidade de poder gerir o tempo à sua maneira; o tempo, esse bem cada vez mais escasso. E como lhe custa tal situação, é natural que tenda a menosprezar, a desvalorizar o novo, o diferente. A História sempre nos disse isso, e assim continuará a dizer.

 

Mas, digo agora eu, pelas melhores razões (tem muitas vantagens) e piores (questões puramente económicas) , o ensino à distância vai-se lentamente impor e chegar às próprias universidades tradicionais, que a ele se vão render, principalmente nos cursos de ciências sociais. Se medicina, por exemplo, está fora deste modelo, a verdade é que há muitos cursos que se adaptam bem, como a UAb tem demonstrado. Aliás, a aplicação da plataforma moodle no ensino presencial é apenas mais um passo, um pequeno passo…

 

Por fim, uma questão, mas que eu remeto para o lado mais romântico do ensino: este ensino não desvaloriza os professores? Não faz perder o encanto de algumas aulas; aquelas com professores que nos fazem em cada contacto pessoal mais apreciar e querer aprofundar determinada matéria? Não deixamos de apreciar aqueles professores que são excelentes comunicadores? Sim, é uma das poucas desvantagens do ensino à distância, mas que certamente a evolução das novas tecnologias e a sua aplicação ao ensino, bem como a nossa presença em colóquios ou conferências certamente ajudarão a ultrapassar…

 

Ensino à distância? Sim, porque não?

publicado por Miguel Correia às 08:14

18 de Setembro de 2011

 

Vamos então às sete maravilhas da gastronomia. Às minhas, não às recentemente votadas. Quando o caldo verde chega aos pratos finalistas e ainda consegue ser eleito, algo não vai bem à mesa dos portugueses. Pobre caldo, aquele, e nem precisamos de o comparar com preciosidades como a sopa da pedra ou essa fantástica açorda à alentejana; simples na sua essência, carregada de sabores escondidos em tão poucos ingredientes. Um luxo; um fausto afinal financeiramente acessível e que as despidas planícies alentejanas nos oferecem. Mas caldo verde? Caldo verde não!

Alheira de entrada também não. Com grelos e batatas como prato principal sim, mas não foi assim que ganhou. Foi nessa versão a solo, vá-se lá saber porquê; coisa triste aquela, ali perdida no prato. Não, claro que não.

Arroz de marisco? Bom, sem dúvida, quando é farto no entulho marítimo e o arroz não submerge a nadar no caldo, nessa miserável descoberta do arroz malandro. Mas nos sete melhores pratos? Não, certamente que não, até porque muito daquele marisco se perde e afoga no arroz, arruinando o encanto e a riqueza que apresenta quando vai à mesa sozinho, simplesmente cozido, como afinal para mim deve ser. Deixemos pois esse arroz para outras refeições.

Para já não falar no pastel de Belém. Bom, muito bom. Mas não elaboramos doces mais deleitosos? Certamente que sim.

 

Aqui deixo portanto a minha escolha. De entrada nada de queijos (que são para mim excelentes saídas, acompanhadas quase sempre de tinto, quando o repasto se prolonga no tempo e a companhia merece), nem obviamente as alheiras, algo pesadas para aconchegar de início qualquer estômago. Fico-me então por umas ostras. Simples, com limão e em cama de gelo. Mais nada. E que boas por cá temos. As melhores.

No peixe as sardinhas. Que peixe este, quando apanhado em fase gorda, num verão já tardio. Nunca em maio ou junho, mesmo quando as festas de Lisboa assim o ditam. Grelhadas no ponto, servidas sempre com batata e uma salada de tomate, com pepino, cebola, pimento assado e azeite e orégãos. Um prazer, os seus lombos sem a pele. Imperdível, aquela massa cinzenta que fica, misturada com azeite sobre o pão, numa pasta imperdível. Um prato obrigatório todos os verões. Talvez o único dos sete que nunca deixei de saborear todos os anos, mesmo quando estava em Macau e só as havia congeladas, tristonhas, mas que apelavam à memória e assim nos satisfaziam, como a qualquer emigrante. Mas sempre das nossas águas, claro.

Depois a lampreia, claramente. Descoberta recente para mim, é algo único servido com o seu arroz. A textura, a delicadeza da carne, aquele casamento perfeito com o arroz e o toque do fio de vinagre. Saborear uma lampreia é algo ímpar à mesa, é um momento; é talvez o instante em que a refeição ganha mais intensidade, até pelo sabor único, difícil de comparar, quando em nossa boca a deixamos repousar uns segundos, entalada entre a língua e o palato, assim como que perdida entre o céu e a terra, a água e o nosso prato. Mas feita por quem sabe. Bem sangrada e tratada, que o manejo da coisa não é para todos, é mesmo só para alguns.

Há mesmo três pratos que me podem transportar para qualquer lado, a qualquer dia, mesmo a qualquer hora: as já referidas ostras com limão, a obrigatória lampreia e agora o seguinte, que imediatamente vos deixo, o único que apenas merece ser degustado no local da origem: o inevitável leitão da Bairrada!

Sim, comido lá, no seu sítio, onde nasceu, nunca em mais lado algum. Acabado de sair do forno, com aquela pele estaladiça e o inseparável molho à base de banha e pimenta. Com batata frita ou de preferência cozida, para aclarar a língua. Carne leitosa, aquela, escondida numa pele crocante, e que ganha outra dimensão com um espumante fresco a acompanhar. Um hino ao bácoro e à arte de o saber bem tratar. E apresentar, que o corte do animal também importa, e muito.

Acrescento agora à lista um peixe que não é de cá, mas que ninguém o faz como por cá: o bacalhau, na sua versão à Brás. Discutível? Talvez, mas esta é a minha lista, não a vossa. Quando as quantidades de azeite, cebola, bacalhau, batata frita e ovo estão nas doses certas é de encher o prato. Há restaurantes que o fazem bem; há cozinheiros que lhe dão uma textura impecável, com a batata frita no ponto e até eu, vejam lá, não vou nada mal; mas o da minha mãe é rei; é o melhor, muito melhor. É único. Húmido, como se quer, mas sem a batata mole, como nunca se pretende (aliás, já o diz o meu pai, que as gosta de sentir bem fritas). É um prato viciante, talvez o único que depois de servido ao almoço, facilmente o seria também ao jantar e mesmo ao almoço do dia seguinte. Até num pequeno-almoço tardio, sei lá.

Chegamos às sobremesas e então certamente temos a sericaia, sempre com ela, a inevitável ameixa em calda. E que bem que alguns restaurantes alentejanos a apresentam. Não pode vir seca, é regra. Mas a regra mesmo é em cada garfada deixarmos que um pouco de ameixa compartilhe o espaço com o restante bolo, num conjunto quase exemplar; um par perfeito, mesmo eterno.

Aliás, a arte da cozinha é mesmo a arte dos casamentos perfeitos, coisa que afinal sempre existe, quem diria: a ostra com o limão, a sardinha com o pão, a lampreia com o arroz, o leitão com o espumante, a sericaia com a ameixa e finalmente a exceção que confirma a regra: o bacalhau com todos, em quase todas as suas versões, com exceção do grelhado. Sempre ao molho, num desarrumo gostoso, como no bacalhau à Brás ou à Gomes de Sá, espiritual ou ainda com natas.

 

Aqui ficaram seis maravilhas da nossa mesa. As minhas. Deveriam ser sete. Mas não são, são somente seis. Porque a sétima é a que ainda está para vir, a que ainda não descobri e um dia de mim se há de abeirar, de surpresa, sem se fazer anunciar, assim devagarinho, mansamente. Como afinal sempre sabe melhor. E esse é o sétimo prazer da mesa, o da descoberta. Sem ela não há boa mesa, não há boas refeições, não há mesmo nada. Na mesa como na vida, é o lugar deixado ao permanente achado que nos transporta ao próximo sabor, ao próximo encantamento. À descoberta de uma mesa melhor, de uma vida a que falta sempre algo; o que ainda está para vir. Mas que sempre chega; sempre há de chegar!

 

Boas garfadas!

publicado por Miguel Correia às 10:46

13 de Setembro de 2011

 

Logo no início, a dedicatória do livro deixa antever o caminho que este vai seguir: Dalila Mateus dedica a sua obra ao irmão, morto em 1967, na Guiné, e a todos os angolanos, moçambicanos e guineenses vítimas do terror e da guerra colonial. As páginas seguintes comprovam a procura da objetividade que tal dedicatória deixaria antever. Doutorada em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE, com «distinção e louvor», a autora lançou-se num verdadeiro estudo da PIDE/DGS por terras de África, mostrando-nos com toda a frontalidade e objetividade a forma de atuar desta polícia política. Mas, como não podia deixar de ser, a obra acaba por ser um retrato aprofundado de toda uma época nas então colónias portuguesas de África, realizado com tal procura do pormenor e dos detalhes, que nos faz sorrir quando folheamos algumas obras recentes sobre o mesmo período, essencialmente preocupadas em passar mensagens, desculpabilizar ações, pessoas e gestos. Com o seu A Pide/DGS na Guerra Colonial 1961-1974, a autora vai certamente colocar nas prateleiras das bibliotecas uma obra de referência, não só para os interessados no tema, mas também para os investigadores.

 

A PIDE/DGS na Guerra Colonial 1961-1974

Dalila Cabrita Mateus

Terramar, Lisboa, 2011

publicado por Miguel Correia às 00:23

21 de Agosto de 2011

 

 

Depois de umas curtas férias recheadas de trabalho num verão ameno e até chuvoso, meia dúzia de apontamentos rápidos:

 

No Governo nada de novo e tudo na mesma. As tais gorduras no Estado que na oposição o PSD dizia que era necessário cortar continuam por aí, e os impostos que Passos Coelho dizia que era o caminho mais fácil e que estava a ser seguido pelo PS, foi exatamente o tomado por si. Mais impostos, aumentos completamente despropositados como o dos transportes coletivos ou do IVA na energia, e ausência de políticas que promovam o desenvolvimento. A oeste nada de novo, portanto, e a alternância das últimas décadas prossegue exatamente na mesma linha.

 

Na Líbia, os rebeldes continuam a avançar. Ou corrigindo, na Líbia os rebeldes empurrados (e fartamente ajudados) pela NATO continuam a avançar. Pormenor que teimosamente continua a escapar a muitos dos nossos analistas, e que se apresenta como uma das maiores afrontas da atualidade de um sistema político a um povo, a um país e ao mundo. Uma vergonha!

 

Curioso como a nossa comunicação social europeia passa por cima da agitação social que se tem registado em Israel, principalmente se colocarmos em contraponto as notícias que têm saído sobre outros países da região…

 

A seleção de sub 20 lá chegou à final. Não ganhámos, é certo, mas de curta vitória em curta vitória chegámos ao último jogo com os brasileiros. O que devia convencer alguns (entre comentadores e dirigentes desportivos) que o futebol não é uma ciência, é um jogo. E que apesar de existirem vertentes importantes, como a qualidade dos jogadores, o treino e a tática, a sorte é algo sempre presente. Era uma seleção fraquita, com jogadores com pouca experiência nos grandes clubes, ao contrário de outras, mas iam conseguindo pegar no caneco. Com muito trabalho no campo, mas também com boas doses de sorte. Também é isto o futebol.

 

O Facebook como plataforma privilegiada de intervenção de políticos com cargos públicos, como o primeiro-ministro ou o Presidente da República? Não concordo, e muitas das vezes cheira mesmo a simples atos de cobardia…

publicado por Miguel Correia às 19:53

01 de Agosto de 2011

 

E pronto, os aumentos nos transportes aí estão. A partir de hoje os portugueses passam a pagar uma média de mais 15% nos transportes públicos (os que passarem, porque alguns passam é a andar de carro). Para tal anormalidade, quatro notas apenas:

 

- Não foi a trika que decidiu, como a generalidade da comunicação social e alguns analistas e políticos não se cansam de dizer. Então há uns meses não havia uns senhores que diziam que estavam a negociar com a troika? Estes aumentos foram fruto de tal negociação!

 

- Estes aumentos chegam a muitos, é certo. Mas chegam mais a uns do que a outros. Para quem ganha 450 euros um aumento de oito ou 10 euros tem um peso no orçamento completamente diferente em relação a quem ganha 1500. No caso de uma família de quatro pessoas, são mais umas dezenas de euros só de aumento. São as classes mais desfavorecidas, muitas vezes sem a opção do carro, quem mais tem que espremer o orçamento. E quem não tem carro porque não pode, não tem opção. Ou vai trabalhar e estudar com os aumentos, ou fica em casa…

 

- A estupidez desta medida é tão grande, que se começa a deitar por terra todo o esforço que se tem estado a fazer desde o final dos anos oitenta nas políticas que levem os cidadãos das grandes cidades a privilegiar o transporte público em detrimento do particular.

 

- Por fim, da minha parte já perdi a esperança que o povo português acorde nos próximos anos sobre o que lhe estão a fazer. Da forma como alguns se riem dele. Eleições após eleições, fica comprovado que é isto que a maioria do povo quer. Aliás, se houvesse eleições amanhã, o PSD voltava a ganhar e o CDS provavelmente até subia de votação. Enquanto as mentalidades não evoluírem, num país onde apesar de todos os problemas porque passa, continua a vender paletes de telemóveis por mês, por exemplo, Portugal vai continuar a pagar mais nos transportes, na saúde, na educação… e a achar que tem que ser assim, que só pode ser assim.  Os adeptos e defensores deste sistema continuam a desempenhar bem o seu papel, a defender os seus interesses (veja-se a actual venda de um banco por 40 milhões de euros, banco onde o Estado colocou milhares de milhões ...). Os outros não.

publicado por Miguel Correia às 08:29

30 de Julho de 2011

 

Sem surpresas, Paços Coelho e a sua equipa fazem questão de demonstrar mais depressa do que os mais céticos supunham o seu estilo de governação. E já agora, como de facto as suas políticas não são iguais às do PS de Sócrates. Conseguem de facto ser piores. Muito piores. O que é assustador, sabendo nós as maldades que o anterior primeiro-ministro fez ao país.

 

Todos sabemos como a direita conservadora esfrega as mãos com esta crise e com a intervenção da Troika. Excelente pretexto para avançarem com políticas que nunca imaginaram que 37 anos após o 25 de Abril conseguissem aplicar. Mas estão a conseguir, e assim vão continuar, como se percebe pelos discursos e pela prática.  

 

Aqueles empresários para quem o Estado só interessa quando as suas empresas enfrentam dificuldades e necessitam de apoios e benesses estatais, esfregam hoje as mães de contentes. Tal como o sistema financeiro. Dentro de dois ou três anos, quando estas dificuldades atuais se atenuarem, o país retrocedeu anos e anos: nas leis laborais, no acesso à saúde, na qualidade de ensino, no acesso aos transportes públicos, nas regalias sociais… em tudo, mas absolutamente em tudo o que está relacionado com a maioria da população e com os trabalhadores o país vai estar, dentro de anos, numa situação muito mais precária. Só mesmo as grandes empresas, o sistema bancário e toda aquela mancha de gente do bloco central e da direita que saltita há 35 anos nas cadeiras do poder político e económico suspirá de alívio. O país estará então à sua medida, e muito mais a jeito para as suas políticas do que hoje. Para eles, será um país muito mais fácil de governar. Para nós, um país com muito menos defesas face às suas ideias e políticas. Um país onde será mais difícil viver; onde crescer, casar, ter filhos e envelhecer será mais difícil, para muitos custoso, até.

 

Depois da crise tudo o que se perdeu vai voltar? Não, claro que não. Depois da crise, o que se perdeu terá que ser novamente reconquistado. A pulso, e apenas aquilo que ainda for possível. Estaremos então com um Serviço Nacional de Saúde a funcionar a meias com os privados, com o ensino público a funcionar a meias com o privado, com os serviços básicos, como a água, na mão de privados, com a eletricidade a preços livres (e bem sabemos pela gasolina e gasóleo o que significam os preços livres…), com as grandes empresas estratégicas nas mãos de privados estrangeiros… é este o país que vamos encontrar, o país em que vamos viver.

 

E sabem porquê?

Porque o Bloco Central mexe com muitos interesses, porque o país está nas mãos de meia dúzia de grandes capitalistas e da banca estrangeira, porque partidos como o PCP e o Bloco de Esquerda não conseguem sequer alinhavar propostas que convençam realmente a maioria daqueles que têm pensamentos de esquerda, porque temos uma comunicação social que é um instrumento nas mãos de quem hoje e ontem esteve no poder, porque a União Europeia é o que é e porque temos, de facto, um povo bem mais limitado culturalmente do que muitos imaginam. E já agora, porque o capitalismo tem uma capacidade de sobrevivência e de se reinventar absolutamente impressionante.

 

E agora? E agora só sei que sentado não vou ficar. Sentado não me vão apanhar!

publicado por Miguel Correia às 11:05

18 de Julho de 2011

 

Nelson Mandela comemora hoje 93 anos. São muitas as suas virtudes, mas há duas que ressaltam: a capacidade de resistência que demonstrou ao longo de todos os anos em que esteve preso e a forma absolutamente sublime como após a sua libertação lidou com os que o encarceraram. Foi essa atitude que permitiu uma transição pacífica da África do Sul para o atual regime.

 

Deixo-vos pois uma referência a um livro que emociona, que nos inspira e que acima de tudo nos transmite força, coragem e esperança. Richard Stengel acompanhou Nelson Mandela durante três anos; viajou com ele, assistiu a conferências em diversos países, comeu a seu lado e até o escutou em distintos pensamentos em voz alta. O resultado final só poderia ser um: um livro repleto de ideias e de nobres princípios, que em determinados momentos foram norteando a vida de Mandela, e que fazem dele o maior líder africano de todos os tempos e alguém respeitado em todos os continentes. Sobre Mandela já se escreveu muito. Mesmo cinematograficamente já apareceram excelentes películas, umas mais biográficas que outras. Mas com este livro facilmente damos por nós a reflectirmos sobre nós próprios, os nossos atos e atitudes. E esse talvez seja um dos maiores legados de Mandela ao mundo. Para ler e posteriormente consultar.

O Legado de Mandela – Quinze lições de vida, amor e coragem

Richard Stengel

Planeta, Lisboa, 2010

publicado por Miguel Correia às 18:55

03 de Julho de 2011

 

Há aqueles que vivem à frente do seu tempo. Há os que vivem atrás do tempo; fora de tempo, diria. E há os que simplesmente vivem intensamente o seu tempo, coisa bem mais ousada, atrevo-me a dizer. É o caso de Jim Morison. Pena que tivesse vivido pouco, muito pouco.

L.A. Woman. Que música, que início de música, com aquela batida inicial. Touch Me, noutro registo, tal como Light My Fire. Ou Crystal Chip e Riders on the storm. E o The End, sim o The end. Faz hoje 40 anos que Jim Morrison morreu, em Paris. Numa banheira, o que para o caso tanto faz. Podia até ter sido numa piscina... Foi uma das vozes da minha adolescência. E a de muitos. Curiosamente, a primeira vez que fui a um cemitério tinha 18 anos, foi em Paris, e ali estive a "curtir" a sua campa. Como muitos mais, num processo próprio de uma adolescência dos anos 80. Hoje, num mundo em que People are strange mantém toda a sua atualidade, brindemos à boa música. Intensamente!

 

publicado por Miguel Correia às 23:07

Este é um livro de contos; um livro de contos de Mário de Carvalho, para muitos um dos melhores contadores de histórias da atual literatura portuguesa. Como todos os seus livros, em O homem do turbante verde as suas páginas folheiam-se tranquilamente, carregadas de palavras que parece desfrutarem do dom de se encaixarem de forma harmoniosa umas nas outras e de constituírem frases que se apreciam com satisfação. Que se sentem, até. E nessa facilidade de leitura nem sempre mora a escrita fácil, o que a torna ainda mais rica e cativante, em muitos momentos apaixonante, porque imprevisível. Neste caso temos contos que nos transportam para diferentes ambientes e lugares, onde está África, mas também Portugal. Onde estão o mistério, a interrogação, mas também o medo, por exemplo, nos casos em que o enredo se desenvolve em torno da luta antifascista em Portugal. São histórias muito distintas, onde a ironia marca mais presença numas do que noutras, mas está quase sempre lá. E onde contos algo perturbadores, como um em que vários arqueólogos que empreendem uma expedição vão morrendo de forma violenta; numa violência que não nos violenta, causam uma estranha atração. Algo só ao alcance de uma escrita que é simultaneamente trabalhada e simples; da escrita de Mário de Carvalho.

 

publicado por Miguel Correia às 16:27

18 de Junho de 2011

 

Foi há um ano, Saramago. Um abraço!

 

publicado por Miguel Correia às 21:58

 

 

E depois de toda esta correria dos últimos dias já temos Governo. Não faço ideia se os ministros foram boas ou más escolhas, pois face aos resultados de 5 de Junho, pouco mais havia a fazer. Parece-me a mim que um Governo deve ter como ministros acima de tudo políticos, que devem ser coadjuvados por bons técnicos. No caso parece ter-se apostado nos técnicos (não sei se bons) e deixado os políticos para segundo plano. Governar é fazer opções políticas com base em pareceres técnicos. É esse o papel de um político. Aqui inverteram-se os papeis, mas aguardemos para ver.

Como medida populista cai bem ao povo português, como opção para a constituição de um Governo cai bem a Passos Coelho (que gere assim menos sensibilidades políticas), como estratégia para resolver os crónicos problemas do país… não me parece que seja grande solução.

 

Já agora, Paulo Macedo como ministro da Saúde não augura nada de bom. O argumento é que é a pessoa certa para cortar gorduras no setor; os propósitos são outros, e passam simplesmente por passar a encarar a saúde com uma máquina de calcular na mão e o fim do SNS como o conhecemos como um dos grandes objetivos a atingir. Vai uma aposta?

 

Uma nota final: acabar com o ministério da Cultura é não perceber onde está a riqueza de Portugal. É não querer perceber por onde poderiamos todos começar a dar finalmente passos seguros e decididos rumo a um país mais desenvolvido, justo e sustentável.

 

 

publicado por Miguel Correia às 09:13

15 de Junho de 2011

 

 

Há filmes que são apenas isso; filmes. E estão bem. Foi para isso que foram criados, para serem filmes. Apenas filmes, simplesmente filmes. Mas há outros que são mais do que isso; são mais do que meros filmes. Por alguma razão trazem-nos algo mais, levam-nos a qualquer outro sítio.

 

É o caso de Blade Runner. Juntamente com o Tubarão, Apocalipse Now e Blue Velvet é o filme que mais vezes vi. Vi, revi, tornei a ver. Sim, há filmes com argumentos mais “detalhados”. Ou com outros argumentos em termos de cenários ou mesmo interpretações fabulosas. Mas estes tocam várias teclas ao mesmo tempo. E ao voltar a rever ontem Blade Runner percebi claramente quais: bom argumento, boas interpretações, bons cenários e… uma banda sonora (Vangelis) excecional. Precisamente, há filmes que se elevam para outro patamar devido a pormenores, pequenos pormenores. E, não poucas vezes, são as suas músicas, os sons, que dão esse empurrão final. É o caso de Blade Runner, bom em tudo, exceto na banda sonora, que é excecional. E isso pode fazer toda a diferença.

publicado por Miguel Correia às 07:53

10 de Junho de 2011

 

A RDP tem-se afirmado como uma estação de qualidade, com bons apontamentos na rádio nacional. A Antena 1 e Antena 2 são dois bons modelos de rádio pública. Longe da perfeição, é certo, mas as suas emissões assumem durante várias horas do dia uma qualidade e uma abrangência temática interessantes e por vezes mesmo cativantes. As manhãs da Antena 1 despertam-nos agradavelmente para o dia, por exemplo.

Mas no melhor pano cai a nódoa, e a RTP/RDP borrou a fazenda no dia 1 de Junho, quando suspendeu as emissões da onda curta. Onda curta que fazia chegar Portugal a todo o mundo.

O argumento, de caráter financeiro, baseou-se no facto de hoje em dia existirem alternativas, como o acesso à rádio via internet e as redes por cabo e satélite. Pálida argumentação, diria, pois muitos dos ouvintes eram motoristas, tripulações de barcos de pesca e turismo, e muitos cidadãos que habitam em locais onde tais tecnologias pouco mais são que miragens, como os residentes em diversas regiões de África.

Uma atitude pouco sensível, esta da RDP, e que numa altura em que tanto se apela em favor da afirmação da cultura portuguesa no mundo, é algo que não se entende. Já que hoje se comemora o Dia de Portugal, seria interessante que os responsáveis da RTP/RDP dessem uma saltinho ao fórum descriminado em baixo. E depois corrigissem a sua curta reflexão anterior.

 

A questão está a ser debatida no fórum:

http://www.forum.ondasdaradio.com/nacionais/emissao-em-onda-curta-da-rdp-internacional-suspensa-temporariamente

 

E a petição via internet “Manter a onda curta RTP Internacional RDP Internacional” 

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=P2011N9010

 

publicado por Miguel Correia às 05:32

08 de Junho de 2011

 

Há uns anos era por cá uma infeliz opção em meia dúzia de restaurantes. Na viragem do século a ideia alastrou-se. Tornou-se mesmo moda, um princípio, uma regra. Deixou de ser a exceção. Triste opção nossa, logo nossa, que temos águas que nos oferecem do melhor peixe do mundo e que detemos cozinhados que o elevam a patamares alcançáveis por poucos. Mas não, tínhamos que abandalhar, com esta coisa do peixe escalado. Peixe escalado é peixe estragado. É pedir que nos sequem o peixe, que lhe tirem os sucos, que lhe abafem os sabores. Que imagem arrepiante, a de um robalo do mar, no tamanho certo, fresco, de guelras vermelhas e olhos brilhantes… mas escarrapachado numa grelha, todo aberto, num incómodo grelhar, no fundo num lento definhar sobre o calor.

 

Peixe grelhado? Espalhem sal, não lhe deem qualquer corte, não lhe façam mais nada. Deixem-no simplesmente repousar, em lume brando. Virem-no uma vez e já está. Depois é só deixar deslizar a faca sobre o lombo, num gesto que facilmente o soltará.

 

Honremos pois o nosso peixe, já que deixámos de respeitar os pescadores…

publicado por Miguel Correia às 08:37

07 de Junho de 2011

 

Partilho convosco um dia especial: dei hoje início formal ao projeto “o meu livro”, de escrita de livros biográficos e de histórias de empresas e instituições diversas, como clubes ou associações. É uma ideia que tem estado a ser cozinhada há quase dois anos, mas que só agora arranca de forma mais abrangente.

 

Em países com os Estados Unidos ou a Inglaterra, são muitas as empresas e as pessoas que se dedicam a esta atividade. Por cá só nos últimos anos a coisa começou a ganhar alguma visibilidade, mas de forma ainda muito imberbe.

 

Que prazer especial, este de guardar para o futuro o passado e o presente. Num livro, num filme, na internet...

 

Embora a página de internet esteja neste momento a ser trabalhada, já podem obter algumas informações em www.livrosportugal.com.

 

publicado por Miguel Correia às 16:57

06 de Junho de 2011

 

Cá estamos dia 6 de Junho, um dia que pouco trará de diferente em relação ao dia 5. Como pouco de diferente trarão os próximos tempos dos últimos tempos que passaram. Ainda não é desta que o país vai tomar o rumo do desenvolvimento sustentado, de uma mais justa distribuição da riqueza produzida e que vai deixar de pedir (obrigar) os mesmos, sempre os mesmos, a carregarem o país às costas. Deixo por isso cinco simples notas pós-eleitorais:

 

- A direita conseguiu, pela primeira vez em eleições livres, uma maioria parlamentar e um Presidente. O que neste momento não deixa de ser estranho, face à atual conjuntura nacional (e internacional), fruto de políticas neoliberais precisamente defendidas pela direita; pelos que agora ocupam o poder em Portugal.

 

- A esquerda baixou significativamente a sua votação em relação às últimas eleições. Dos três partidos, PS e Bloco baixaram (o bloco de 16 para 8 deputados...) e a CDU teve uma ligeira subida. Será que parte dos militantes do PS com mais responsabilidades vai finalmente perceber a direção política que o partido deve tomar? Que as soluções estão justamente à sua esquerda e não à direita? Será que é desta?

 

- Parte importante da votação no PSD foi só e exclusivamente uma manifestação de desagrado em relação a Sócrates. Com a nota curiosa de Passos Coelho defender o aprofundamento de diversas das políticas de Sócrates que esses votantes agora censuraram, nomeadamente as de caráter social. Censuraram votando no seu aprofundamento. Triste equívoco de muitos, que o PSD rapidamente vai comprovar…

 

- Face à atual conjuntura, os parcos resultados eleitorais da CDU e do Bloco de Esquerda deveriam, de uma vez por todas, obrigar a uma profunda reflexão interna nestes partidos. Como é possível que face a tudo o que se passou e perante tudo o que se anuncia, estes partidos tenham ou mantido posições (PCP) ou simplesmente perdido o pé (Bloco)? É que nem como partidos de protesto funcionaram…

 

- O Bloco de Esquerda ficou reduzido a metade. Percebe-se algumas das razões para tal perda de eleitores, mas não se percebe exatamente, face à descida do PS e pouco significativa subida da CDU, para onde foram esses votantes. A abstenção não explica tudo… E mantenho a minha: os eleitores do Bloco são dos mais voláteis e menos conscienciosos em termos políticos, o que não deixa de ser curioso (e penoso para políticos como Louça…). É o partido de muitos jovens que nas últimas eleições acharam porreiro votar Bloco. Mas que entretanto perceberam que tal não levava a nada, tendo alguns agora votado mesmo PSD e CDS. E agora, Bloco?

 

Face aos resultados, as perguntas; que país vamos ter? Para onde vamos?

Infelizmente, exatamente para o mesmo lugar; isto é, para lugar nenhum. Vamos unicamente caminhar mais depressa mas exatamente para o mesmo buraco que o PS nos levou. De buraco em buraco até ao estampanço final…

 

publicado por Miguel Correia às 11:04

04 de Junho de 2011

 

Chamam-lhe dia de reflexão. E é hoje. Se tal dia nunca fez sentido, hoje em dia muito menos. Ainda há alguma necessidade de um dia em vésperas de eleições para refletir? Refletir sobre o quê? Sobre o que foi dito na campanha? Sobre o que ficou por dizer? Sobre os atropelos entre candidatos? Sobre as estratégias de cada partido para o futuro do país? Não. Estratégias há poucas, e o pouco que alguns partidos apresentaram não é novo, é até velho. E por vezes gasto e mesmo já usado e comprovadamente desinteressante para o real desenvolvimento de Portugal

 

O que esta campanha acabou por mais uma vez comprovar é a total falta de soluções que os partidos que têm estado no Governo nos últimos 30 anos têm demonstrado. E a dificuldade que aqueles que poderiam afirmar uma alternativa têm em se organizar e em transmitir as suas ideias e convicções. Por responsabilidade de uma comunicação social formatada (basta ver os painéis de comentadores das televisões e jornais…), totalmente assente no centro-direita, mas também por culpa própria. Aquela de não se reunirem com o FMI, nem que fosse para simplesmente afirmar que discordam deste processo, da forma como está a ser desenvolvido e que Portugal tem um Governo legítimo, é bem sintomático da incapacidade das atuais direções do PCP e Bloco para lidarem com alguns dos diversos problemas específicos que hoje nos acompanham. E que moldam a sociedade. Não gostam de ser tratados como partidos de protesto. Mas fazem por isso.

 

Amanhã vou votar. E não é em branco. Mas voto por convicção ideológica. Porque caso não a tivesse, o voto iria para a urna tal como o recebi: em branco.

 

Mas pronto, hoje é o tal dia de reflexão. Que todos consigam, com esforço e dedicação, desencantar os seus pretextos para votar…

 

 

publicado por Miguel Correia às 11:00

03 de Junho de 2011

 

De Marrocos à África do Sul de automóvel, com a realização do Mundial de Futebol como pretexto. Foi este o desafio de Tiago Carrasco e de dois amigos, um fotógrafo, João Henriques, e um cameraman, João Fontes. Foram 150 dias África abaixo, cinco meses em que o imprevisto conviveu com situações de profundo prazer, em que a contemplação foi muitas vezes ultrapassada por problemas de resolução imediata, em que a pluralidade de 21 países e de regiões tão distintas de África permaneceu lado a lado com o encanto de um continente muito mais diverso do que se imagina. Foram 30 mil quilómetros entre alucinantes paisagens a quilómetros e quilómetros de gente alguma, e por entre multidões que se acumulam nos bairros mais degradados das grandes metrópoles africanas. Terra de profundos contrastes, esta, que os três registaram. Uma viagem onde se confrontam culturas e modos de ver e pensar, e em que o destino final, Joanesburgo, parecia por vezes tão perto, mas simultaneamente tão longe. Uma viagem vivida e que nos é contada de forma intensa. É um livro de viagens, sim. Certamente um dos livros de viagens em África mais cativante dos últimos anos.

publicado por Miguel Correia às 22:01

01 de Junho de 2011

 

A nave Endeavour aterrou hoje na Florida, naquela que foi a sua última viagem. E a última missão dos vaivéns espaciais norte-americanos está prevista para o início de Julho.

 

Sensação estranha, esta. Quem não se lembra da primeira viagem do Columbia, nos anos oitenta do século passado. E no que isso significou, a vários níveis. Na altura, a corrida ao espaço entre americanos e soviéticos era, acima de tudo, mais uma face da Guerra Fria. Nenhum ganhou, embora se possa afirmar que os soviéticos saíram na frente e os americanos terminaram melhor, com os seus veículos reutilizáveis. Mas o grande vencedor foi a ciência, sem dúvida. Que o diga a atual estação espacial internacional, que prossegue as suas voltas à terra, e que já serviu de casa a astronautas de diversos países.

 

A cooperação internacional na conquista do espaço existe, é uma realidade. E a Guerra Fria há muito que se foi. Mas há outras guerras. E essas, por já não haver duas superpotências mundiais, seguem trajetórias diferentes, rumos distintos. Veja-se o caso da Libia e a intervenção estrangeira naquele país. Seria tal possível nos tais anos oitenta?... Se bem se recordam, nesses tempos a intervenção "resumiu-se" a um ataque aéreo efetuado por aviões dos Estados Unidos. A ânsia de intervir era a mesma, os meios e a forma outras...

 

 

 

 

publicado por Miguel Correia às 21:55

27 de Maio de 2011

 

O cenário está negro para o ex-director-geral do FMI. A justiça norte-americana tem os seus defeitos e virtudes, mas de lentidão é algo que dificilmente alguém a poderá acusar e o processo decorre num ritmo para nós, portugueses, profundamente estranho. Também muitas e rápidas têm sido as várias abordagens aos devaneios do senhor nas redes sociais. Estávamos então em 2009, numa cimeira em Pittsburgh...

 

Já agora, impressionante são os seus recursos financeiros, que lhe permitem algo que o comum dos mortais não consegue: pagar um milhão de dólares para aguardar o desenrolar do processo em casa. Uma casa alugada por mais de 35 mil dólares/mês, e com uma segurança que ficou a seu cargo de muitas dezenas de milhares de dólares também por mês.

 

Quantos acusados de tentativa de violação nos Estados Unidos e que entretanto já foram julgados se puderam dar a este luxo?

Pois é, esta justiça tem coisas...

 

publicado por Miguel Correia às 10:11

26 de Maio de 2011

 

Há noites assim, em que contemplamos o resto do dia e desejávamos que fosse noite; por horas. E mais algumas horas. Já todos as vivemos, quase sempre as partilhámos. Uns com mais intensidade que outros, uns com mais consciência disso que outros. Há noites que são dias e que fazem parte do dia, de um dia. Que conquista a noite e por isso da noite nesses dias se faz dia.

Há noites assim, dizia. Noites que não acabam, porque fazem parte do dia. Mas o sol faz-se sempre. Todos os dias. Vagarosamente e com ele a luz; da noite, daquela noite. E de mais um dia. Porque há noites que adormecem e dias que não despertam. Sim, porque há sempre uma noite, aquela noite. A nossa noite. Hoje, ontem ou um qualquer dia.

 

Mas há sempre uma noite, aquela noite. E há sempre um dia!

 

Como ansiamos todos por esse dia!

 

publicado por Miguel Correia às 22:32

24 de Maio de 2011

 

Sócrates, Passos Coelho, Portas e o inseparável homem sombra, Cavaco Silva, continuam alegremente a levar-nos de casamento em casamento até ao funeral final. Do nosso, não deles.

 

Tal como no filme, é evidente que há casamentos que resultam e outros que decididamente não. Prosseguir nos erros do passado e com base neles lançar a base de novos casamentos políticos, precisamente com as mesmas políticas, só pode dar divórcio. Deles e de muitos em relação à política.

 

E dentro de um ano cá estão todos (ou outros por eles...), a afirmar que a renegociação da dívida é o único caminho. Vai uma aposta?

publicado por Miguel Correia às 19:02

 

É um programa do canal 1 e chega-nos de segunda a sexta-feira, ao início da tarde. Num momento em que a informação televisiva empobreceu significativamente, fruto de uma campanha eleitoral que se afastou definitivamente dos problemas reais do país, situação que o nosso jornalismo ainda tende a agravar, ao puxar para cima as guerrilhas partidárias e ao desprezar a grade discussão política (os intérpretes não ajudam, mas podia haver um esforço…), o programa Sociedade Civil é algo diferente. Além de fazer jus ao nome, é descomplexado nos convidados, plural nos temas abordados e eficaz na abordagem jornalística feita aos mesmos. Um bom exemplo de televisão pública; um inegável caso de bom jornalismo. Simples, com meios relativamente reduzidos, feito de gente para a gente. Sem vedetismos da jornalista/pivot (ouve, puxa pelos convidados e sintetiza quando é necessário). O nosso país está ali, com todas as suas vicissitudes, de segunda a sexta. E é um país diferente do das oito da noite, acreditem; é o nosso país, frágil, pequeno, carregado de contradições, de desigualdades, mas que pode ser equacionado, discutido e certamente melhorado. Ainda por cima, até a jornalista nos atrai para o programa. 

publicado por Miguel Correia às 18:35

22 de Maio de 2011

 

Entrámos em campanha eleitoral. Momento nobre, este, se a prática fosse a discussão de ideias, projetos; se o objetivo fosse a discussão do futuro do país e dos seus cidadãos. Do seu bem-estar. Não deveria ser esse o objetivo da política? Pois em Portugal, neste momento, não é esse o caminho seguido pelas atuais direções partidárias. Nem tem sido nos últimos anos…

 

É verdade que nem todos os partidos são iguais, nem todos os políticos são iguais e nem todas as políticas são iguais. Mas escutar hoje os debates entre os responsáveis pelos principais partidos é um exercício tortuoso e penoso. Entre um contínuo desfilar de números e uma ausência de propostas estruturantes para o futuro do país, entre a pura demagogia e a ausência de uma discussão real sobre política e políticas que possam levar à resolução dos problemas que afetam os cidadãos; entre nada e coisa nenhuma se esgota a troca de argumentos. Tudo está em causa. Tudo, menos as pessoas. Para que serve então a política?

 

 

 

publicado por Miguel Correia às 22:10

20 de Maio de 2011

 

Ocupam desde domingo a Porta do Sol, em Madrid. São sobretudo jovens; jovens indignados. Têm dormido em sacos cama e por ali ficam depois, durante o dia, quando recebem a companhia de muitos mais. Chegam através das redes sociais, e é também através destas que manifestam as suas opiniões e frustrações. O movimento já tem nome, 15M, e ampla cobertura mediática no país vizinho. Dizem que estão solidários com os portugueses, gregos e irlandeses, mas que os problemas são globais. E que cada um pensa o que quer, e que apenas não permitem partidos ou sindicatos. Numa Europa desorientada, este é um caminho. Aliás, sempre foi, a questão é que hoje as redes sociais conseguem em minutos o que antes demorava semanas. Ou meses. E permitem uma intervenção em direto, tanto no chamamento, como na cobertura do que se vai passando, através da divulgação de opiniões e imagens relativas a acontecimentos que estão a acontecer. E por isso mesmo mobilizam multidões, não convocadas por um ideal, mas por múltiplos ideais, muitas vezes não sabendo qual a exata opinião de quem está ao seu lado.

 

Tudo isto me faz pensar: estão indignados, mas não querem partidos nem sindicatos. Estão portanto a excluir, no fundo a seguir a mesma direção daqueles que criticam. Querem mudar, mas quem lá está puxa em diversas direções. O que os une é que estão contra a atual situação, mas o que os divide é muito, tanto que nem eles sabem bem o quê. E não sabem porque não se conhecem, apenas sabem que estão ali. Então querem realmente o quê?

 

Tempos difíceis, estes que vivemos. De indefinição, por um lado, e de profunda injustiça social, por outro. Acredito, como sempre acreditei, neste tipo de manifestações da sociedade. Fazem mesmo falta, pois equacionam, revolvem, abanam. Mas a Europa não é o Norte de África, e o que faz falta é também algo mais. É uma reflexão feita hoje para o dia de amanhã. Com partidos, com sindicatos, com associações, com apartidários, com jovens, com velhos; com todos. É uma perspetiva realmente inclusiva, e não exclusiva, como acontece atualmente na Porta do Sol e noutras portas por Espanha, Portugal e em cidades europeias. Mas que assim serão portas que nunca abrirão. Podem entreabrir-se mas isso, tem-nos dito a História, nunca resolveu nada, nunca alterou realmente coisa nenhuma. E não é preciso muito: basta apenas que os que já estão na rua saibam receber, e que os que não estão, principalmente certos partidos, saibam lá estar, sem pretender subjugar, dominar, encaminhar. Talvez assim alguma porta nos deixe finalmente entrar o sol.

 

notícia no Publico espanhol

http://www.publico.es/espana/377384/los-indignados-daran-un-grito-mudo-al-arrancar-la-jornada-de-reflexion-elecciones2011

publicado por Miguel Correia às 12:22

18 de Maio de 2011

 

 

Foi uma vitória do futebol português, do Porto mas, acima de tudo, de Helton. Não, não por ter defendido muito. Apenas por, pela primeira vez desde que me lembro de ver futebol, um jogador reconhecer que não sofreu uma falta. E que aplaude a decisão acertada do árbitro, ao não marcar falta. A menos que me tenha escapado algo, um grande momento de futebol. Parabéns Helton!

 

publicado por Miguel Correia às 22:03

 

Não sei o que se passou com o presidente do FMI naquele quarto de hotel de dois mil dólares por noite. Provavelmente, Strauss-Kahn equivocou-se, e deduziu que os dois mil dólares davam direito a algo mais. Não faço ideia. Mas o caso já está na justiça americana, e agora cabe ao senhor defender-se e justificar o que aconteceu.

 

Mas se a sua defesa e justificações estiverem ao nível das que faz sobre qual deve ser o destino da verba que o FMI emprestou a Portugal, então a coisa está feia para o senhor. Preta, mesmo. Cheira-me que vai ficar tão entalado como nós… Nem sei mesmo quem se safa primeiro, se ele ou nós.

 

 

publicado por Miguel Correia às 15:18

 

Hoje há um jogo, mas um jogo diferente. Há uma final, mas uma final especial. E há duas equipas, ambas portuguesas. É pois mais do que uma simples final o desafio que vamos assistir hoje à noite, disputado em Dublin, na República da Irlanda. A componente desportiva é a mais importante, sem dúvida. Apesar de tudo, o futebol ainda é um desporto. Mas há aqui algo mais em jogo: a imagem de Portugal. Que durante umas horas se fale de Portugal pela positiva, pelo espetáculo que as equipas deram, e não por eventuais quezílias entre jogadores, entre jogadores e o árbitro ou mesmo entre o público. Com o dirigente que um dos clubes promove há anos é sempre um exercício difícil. Mas que haja aqui um pequeno e simples esforço coletivo é o que se pede.

 

Curioso: Irlanda e Portugal, dois países que pediram uma intervenção externa para resolver os seus problemas internos. Que ambos resolvam da melhor forma este pequeno desafio; da infelizmente quase sempre em causa segurança em jogos de futebol, aos aspetos puramente desportivos. E que ganhem todos, o que hoje até seria bem possível... E acreditem que a malta por cá até agredecia.

publicado por Miguel Correia às 09:57

13 de Maio de 2011

 

«O livro é como a colher, o martelo, a roda ou o cinzel. Uma vez inventados, não se pode fazer melhor. Não se pode fazer uma colher que seja melhor que uma colher. Os designers tentam, por exemplo, melhorar saca-rolhas, com sucessos muito moderados e que a maior parte das vezes não funcionam». É desta forma irónica que Umberto Eco se refere, logo nas primeiras páginas do livro A obsessão do fogo, Difel, Lisboa 2009, à pergunta «fixa» dos jornalistas, como ele próprio diz, sobre o eventual desaparecimento do livro.

 

E este é precisamente um dos livros que nos pode dar a garantia que tal não acontecerá. Escrito por dois pensadores, é uma longa conversa sobre os livros e a evolução da Humanidade, e a obra surgiu após um encontro em Paris entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. Nas suas páginas percorremos mais de dois mil anos de histórias sobre livros e a literatura, desde os papiros até à era digital da internet e dos e-books. Uma leitura bem agradável e atual, garanto-vos.

 

Já agora, a propósito do desaparecimento dos livros, substituídos por suportes digitais, um simples apontamento: arrumava eu a casa e encontrei umas cassetes Video 8 do início dos anos 90 do século passado. Referiam-se a viagens que fiz à Malásia, Sry Lanka e Índia, países que certamente não visitarei tão cedo. Questão: como visioná-las? A minha câmara já não aceita aquele tipo de cassetes, e nenhum amigo ainda tem uma câmara daquele tempo!

 

Exatamente, posso ler um livro com centenas de anos, mas já não consigo aceder a um suporte digital com apenas 20 anos. A informação dos livros está lá, a das cassetes foi-se...

 

 

publicado por Miguel Correia às 11:24

 

A ver se percebo: os autointitulados partidos do "arco do poder" explicam-nos que devemos votar neles porque são eles que têm governado o país, e votar noutros partidos é um voto desperdiçado, sem utilidade. Portanto, nós chegámos onde chegámos porque estes partidos nos governaram de tal forma mal que voltámos a estender a mão ao FMI (pela terceira vez desde que nos governam), mas devemos voltar a votar neles porque são eles que nos têm governado e que estão em melhores condições de o continuar a fazer. Simples.

Temos então que na sua opinião os portugueses devem votar nas mesmas políticas que nos levaram ao atual buraco, porque são precisamente elas que nos vão voltar a fazer sair dele!

 

Enfim, se muitos já se aperceberam desta incongruência, o problema é agora o remédio que dizem que vão finalmente tomar: não votar!

Dizia-me uma amiga: a 5 de Junho vou protestar e não vou votar. Mas já agora, porque não protestar entregando finalmente o seu voto precisamente a um desses partidos que defendem políticas alternativas?

 

Porque são partidos sem propostas, que se limitam a protestar? Então e que tal dar um salto aos sites oficiais desses partidos? É que talvez não seja bem assim…

 

Nem tudo na vida é inevitável, e este pretenso governo de salvação nacional (a um, a dois ou mesmo a três) não é, nem pode ser, uma inevitabilidade. É uma simples questão de informação e reflexão. E depois ação!

 

publicado por Miguel Correia às 09:16

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